19 abril 2018

Deus escreve certo por linhas tortas! Será?



Neste texto e noutro que escreverei no futuro, vou contar-vos a história de dois "amigos" meus que fizeram parte da minha vida e que me serviram como um exemplo para os rumos a não seguir.

Estava eu no secundário, quando conheci o Rafael (nome fictício), ele era alguns anos mais velho do que eu, cabelo escuro meio que encaracolado, olhos negros e profundos a contrastar com um rosto fino e pálido. Roupa de ganga, botas de marca e cigarro na boca, sempre rodeado de gente, sempre rindo e convivendo, captando a atenção de todos, incluindo das raparigas que seguiam com atenção todas as suas palavras e movimentos.
            
O Rafael era dos alunos mais populares da escola, sempre presente nas rodas mais influentes e sempre convidado para festas. Passei assim os meus tempos de adolescencia na escola a admirar as capacidades sociais dessa figura incontornável do meio estudantil do início dos anos 90.
Os anos passaram-se e cada um seguiu seu rumo.
            
Em 2005, voltei a encontrar esse meu colega do passado e foi um choque para mim. O Rafael já não era nem uma sombra daquela rapaz que havia conhecido, tinha um aspecto descuidado, desfigurado e mais chocante ainda, estava cego.
O nosso reencontro, foi marcado de longas conversas ao longo de muitos meses e cada vez mais, me fui inteirando da sua triste história.
            
O seu popularismo, fez com que vivesse uma vida de festa em festa, de circulos de amigos que só queriam a vida da noite, onde foi apresentado ás drogas, começando claro, pelas mais leves e depois, como que numa expiral descendente, as mais duras. Passou a roubar para alimentar o vício e acabou na rua.

Os anos foram-se passando e a debilidade física começou, até que numa consulta foi informado que, se continuasse com uma vida de dependência, iria perder a visão. Foi exactamente isso que veio a acontecer.
Fiquei abismado com a história dele, mas mais incrédulo fiquei com a sua confissão final:
            
- Ricardo, o que mais me magoa, é saber que nunca puderei ver o rosto da minha sobrinha, mas a droga é tão poderosa, que se voltasse atrás, até á altura em que o médico me deu a escolher entre o consumo ou a visão, eu voltaria a escolher a droga, mesmo sabendo o que sei hoje. Não deixei de consumir por ter ficado cego, deixei de consumir por já não ter as condições para puder roubar e patrocinar o vício. Se não fosse pela cegueira, hoje não estaria vivo.




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